Poltrona Resenha: Neruda/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Resenha: Neruda/ Cesar Augusto Mota

070905Ícone da literatura latino-americana e Prêmio Nobel de Literatura em 1971, o escritor chileno Pablo Neruda tem sua vida retratada no longa-metragem “Neruda”, do cineasta Pablo Larraín, mas não com uma narrativa linear e acerca de suas poesias. O diretor de “No”, “Tony Manero” e “O Clube” vem com uma nova proposta que vai sensibilizar e conquistar os espectadores.

A narrativa se passa na década de 1940, mais precisamente em 1948, ano em que o presidente González Videla decreta a Lei Maldita, que consistia em perseguir políticos comunistas. Pablo Neruda, cujo nome verdadeiro é Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, é senador pelo Partido Comunista e se vê perseguido, sendo obrigado a se esconder em diversas casas com sua esposa Delia del Carril, e passa a viver uma vida clandestina.

Muitas coisas já foram ditas e escritas sobre Pablo Neruda, mas não sabemos muito sobre sua vida particular, o que ele pensava e imaginava sobre as pessoas mais próximas? Quem eram seus amigos? São várias lacunas a serem preenchidas, e Larraín usa como mote a perseguição política que Neruda sofreu, e passa a imaginar como o poeta teria vivenciado esses momentos e o que diria e como reagiria a situações de pressão e desespero. Uma abordagem tipicamente literária, que não se atém ao real e explora o universo de Neruda.

A história é centrada em dois personagens, o próprio Neruda (Luis Gnecco), e o policial Oscar Peluchonneau (Gael García Bernal), o responsável por prender o poeta e quem narra a trama. Para Peluchonneau, prender Neruda é a missão de sua vida, ele se define como o “caçador do poeta”. Ao mesmo tempo em que sente reprovação pelo poeta e político, o policial também tem o sentimento de admiração, durante a história ele expressa que seria formidável ter uma vida como a de Pablo Neruda, de emoção, boemia e luxúria. Peluchonneau revela que não quer ser tratado como um personagem secundário, quem ser o protagonista da narrativa, e isso torna a abordagem de Larraín ainda mais poética, tudo é conduzido com boas doses de humor e poesia.

Pablo Neruda não se vê tão perdido como muitos poderiam imaginar quando se desloca para vários pontos do Chile para fugir das perseguições da ditadura de Videla, ele vê uma oportunidade para se reinventar e vai deixando pistas ao longo da história, dando a impressão de que quer ser encontrado e que quer ter um diálogo com seu perseguidor. Com essa postura de Neruda, não sabemos mais se estamos diante de fantasia ou do que aconteceu na vida real, nos deparamos com uma verdadeira alegoria, que é a perseguição de um policial a um escritor consagrado e caçado por suas convicções políticas. Peluchonneau narra, mas Neruda dita as regras, os retratos de dois homens são apresentados em detrimento dos fatos, e tudo isso contado de uma forma poética.

Indicado ao Globo de Ouro 2017 e cotado a representar o Chile no Oscar de melhor categoria de filme estrangeiro, Neruda chega forte e com promessa de encantar os espectadores com um lado que ninguém conhecia do consagrado poeta chileno, mesmo que tenha sido contado de uma forma ficcional, com lacunas sendo aos poucos preenchidas. Uma verdadeira obra-prima, vale o ingresso.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s