Poltrona Resenha: O Filme da Minha Vida/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Resenha: O Filme da Minha Vida/ Cesar Augusto Mota

Muitas coisas já foram ditas sobre o cinema brasileiro, que os filmes carecem de qualidade, são muito restritos à violência, não sabemos fazer comédia e ficção científica e não há bons contadores de história no Brasil. Não é verdade, existem longas de qualidade e o que está prestes a entrar em cartaz, ‘O Filme da Minha Vida’, nos mostra que os filmes brasileiros podem sim arrancar aplausos dos espectadores e se equipararem às produções europeias.

Dono de uma carreira de sucesso e diretor de filmes como ‘Feliz Natal’ e ‘O Palhaço’, o ator Selton Mello dirige seu terceiro longa e faz uma pequena participação na trama, com um trabalho que funciona como tributo. Se em ‘O Palhaço’, havia a exaltação à profissão de ator, em ‘O Filme da Minha Vida’ é feito um culto ao cinema, um meio capaz de nos ilustrar situações reais regadas de muita beleza, fantasia e nostalgia. Com todos esses ingredientes, Selton procura valorizar o cinema ao mesmo tempo em que tenta inserir o público na história a qual se propôs a contar.

A narrativa acompanha Tony (Johnny Massaro), um jovem que deixa sua terra natal, Remanso, na Serra Gaúcha, para estudar. Ao retornar, descobre que o pai Nicolas (Vincent Cassel), voltou para a França, seu país de origem, sem deixar notícias. Tony agora terá que lidar com um grande trauma e uma situação não resolvida aliado à inexperiência e a recém-chegada à vida adulta. Em um ritmo cadenciado tudo é apresentado ao espectador, a cidade, as locações, os personagens, todos possuem o devido timing de apresentação para que o espectador se envolva e mergulhe nas emoções transmitidas, bem como incorpore à mente todas as mensagens apresentadas.

A fotografia, de Walter Carvalho, é belíssima, com tons pastéis e planos abertos que destacam as locações da Serra Gaúcha nos anos 1960 e algumas tomadas com plano mais fechado, destacando o olhar e as expressões faciais dos personagens. Tudo foi feito na medida e com todo o cuidado, para fazer o espectador se transportar para o passado e valorizar cada momento representado e depois voltar ao presente.

O roteiro, escrito por Selton Mello e Marcelo Vindicatto, toca em temas como nostalgia, belezas da vida, a importância das pequenas coisas e, principalmente, o tempo. O tempo é constante, não para e devemos ter jogo de cintura para resolver situações que a vida nos oferece. A forma como aproveitamos o tempo vai dizer a posição que alcançaremos, e sem resolver alguma situação pendente, não se avança. Uma metáfora é feita com a situação, com viagens de trem em várias cenas, e nossa vida costuma ser assim mesmo, constantes idas e vindas e pouco tempo para resolver várias coisas. Tony atravessa um momento de dor, e essa dor é um tanto profunda por conta da forte ligação que ele tinha com o pai, e ele precisava se libertar do trauma. A maneira como Tony lida com isso e como ele se relaciona com os outros personagens são muito bem abordadas, Johnny Massaro consegue entregar um personagem que realmente se transforma, que amadurece, um menino que se torna um homem.

Os demais atores do filme também tiveram atuações excepcionais. Bruna Linzmeyer, como Luna, par romântico de Tony, impressiona por suas expressões corporais e seu olhar, e sem dizer nada já ficamos sabendo o que virá em seguida. Bia Arantes, no papel de Petra, irmã de Luna, também não fica atrás. Vincent Cassel, apesar de estar em poucas cenas, funciona muito bem na trama e Selton Mello, como Paco, amigo do pai de Tony, traz uma veia cômica e muita sabedoria, com analogias interessantes entre o homem e o porco e o cinema e a vida. Palavras que realmente tocam e ficam na mente.

Uma frase célebre de Selton Mello dita no filme encerra essa análise de hoje, siga-a e vá além: ”Antes eu só via o início e o fim dos filmes. O início, para conhecer a história, e o fim…eu não posso contar”. Uma verdadeira alegoria, um filme em forma de poesia, não perca!

 

 

Por: Cesar Augusto Mota

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