Poltrona Resenha: Eu Não Sou Seu Negro/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Resenha: Eu Não Sou Seu Negro/ Cesar Augusto Mota

Para celebrar o Dia da Consciência Negra e fazer o leitor refletir acerca da importância da data, o Poltrona de Cinema traz como sugestão o documentário ‘Eu não sou seu Negro’, indicado ao Oscar de melhor documentário 2016, dirigido pelo cineasta e ativista haitiano Raoul Peck.

A produção é baseada no manuscrito ‘Remember This House’, de James Baldwin, que trata das relações étnicas durante as lutas pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos com foco na morte dos principais ícones, como Martin Luther King, Malcom X e Medgar Evers. O documentário não aborda apenas a violência da época, como também faz uma intercalação com os dias atuais, com a violência policial que deu origem ao movimento ‘Black Lives Matter’, ao lado do movimento ‘Black Panther’.

Além disso, há entrevistas com os líderes do movimento pelos direitos civis, dentre eles James Baldwin, que aponta a principal origem do racismo e que está cada vez mais presente na sociedade contemporânea.

Sobre o autor

Nascido em Porto Príncipe, capital haitiana, Raoul Peck  se refugiou com sua família para a República Democrática do Congo com o intuito de escapar da ditatura de Papa Duvalier. Taxista em Nova York, fotógrafo e jornalista na Alemanha, formou-se em cinema e retornou ao Haiti para se estabelecer como cineasta e ativista político. Foi por um breve período Ministro da Cultura (1996/97). Seu mais recente trabalho foi o filme ‘O Jovem Karl Marx’, que aborda o contexto histórico-filosófico em que Marx iniciou sua trajetória intelectual e política.  O longa foi lançado no Festival de Cinema de Berlim em 2017.

 

 

Por: Cesar Augusto Mota

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Poltrona Resenha: Olhando para as Estrelas/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Resenha: Olhando para as Estrelas/ Cesar Augusto Mota

Inclusão é uma palavra cada vez mais ouvida e algo ainda mais evidenciado na sociedade atual. Quando nos deparamos com pessoas portadoras de deficiência e com a vontade que elas demonstram de mostrar para si mesmas que podem realizar tudo o que uma pessoa desprovida de alguma disfunção anatômica faz, não só nos emocionamos, como também nos sentimos motivados para seguir o exemplo. O documentário dirigido por Alexandre Peralta, ‘Olhando para as Estrelas’, sem dúvida vai cativar o espectador e mostrar a ele que os problemas enfrentados no dia a dia por cada um de nós são pequenos perto do que é encarado pelas protagonistas e nos fará olhar para a vida sob outra perspectiva.

O filme ilustra a trajetória de duas dançarinas da primeira e única escola de balé para pessoas com deficiência visual no mundo, a Associação de Ballet e Artes para Cegos Fernanda Bianchini, fundada há 20 anos na cidade de São Paulo. Geyza, a primeira bailarina da companhia, também é professora da escola, já Thalia é uma adolescente que sonha em ser escritora e também viver da dança, além de ser como outras meninas, que enfrentam problemas comuns na sua faixa etária. Ao decorrer da projeção, conseguimos compreender os medos, os sonhos, bem como acompanhar a luta diária dessas guerreiras, que demonstram que a limitação visual não é um empecilho para a realização de tarefas complexas, tendo em vista que o ballet é uma arte visual e corporal.

A narrativa é bem simples, fácil de ser acompanhada, as histórias contadas são emocionantes e o espectador fica ainda mais encantado com a superação demonstrada pelas dançarinas, não só durante os ensaios e apresentações, como também os desafios do dia a dia em realizar atividades domésticas e na questão da mobilidade. O roteiro é primoroso, mas do meio para o fim do documentário a história se perde um pouco, não há mais aquela conexão que existia no início, mas essa falha é compensada com um bonito, profundo e alegórico desfecho, arrancando lágrimas e aplausos da plateia, tamanho foi o esmero na produção, realizada durante três anos.

Além das interações das protagonistas, a fotografia também impressiona, com imagens fora de foco em algumas cenas para proporcionar uma experiência mais imersiva a quem acompanha e dar ideia de como é o mundo de uma pessoa portadora de deficiência visual. Em outros momentos, o brilho das luzes no teatro também ganha espaço, para valorizar não só o cenário, mas os artistas principais do espetáculo, grandes estrelas que brilham não apenas em cena, mas também fora dos palcos.

Um filme alegórico, cativante, emotivo e motivador, quem acompanha ‘Olhando para as Estrelas’ vai perceber que a força de vontade e a paixão pela vida farão os problemas diários serem deixados de lado, por mais complexos que sejam, e nos farão perceber que vale a pena aproveitar cada momento e acreditar que podemos chegar a patamares nunca antes imaginados. Um brinde à vida!

Avaliação: 5/5 poltronas.

 

 

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Resenha: Tempestade-Planeta em Fúria/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Resenha: Tempestade-Planeta em Fúria/ Cesar Augusto Mota

Nas últimas semanas nos deparamos com notícias sobre o possível fim do mundo, e isso sem dúvida dividiu muitas pessoas, houve quem embarcasse em diversas teorias da conspiração, e outros que achassem se tratar de puro achismo e coisa de maluco. No cinema não é diferente, já tivemos muitas produções que exploraram o tema, e muitas bem recebidas pelo público, como Armageddon, 2012 e Impacto Profundo. A Warner Bros. lança mais um filme sobre essa temática, ‘Tempestade: Planeta em Fúria’ (Geostorm), que promete impressionar os cinéfilos com cenas bastante impactantes e uma história envolvente.

O ano é 2019, e são cada vez mais frequentes as tempestades de raios, maremotos, os terremotos e outros eventos climáticos que podem ameaçar e até mesmo extinguir a vida na Terra. Para o combate a esses males, foi construído um conjunto de satélites com a cooperação de 17 países, o “Dutch Boy”, com a coordenação do engenheiro Jake Lawson (Gerard Butler). Por questões políticas, Jake é afastado da função e Max (Jim Sturgess), seu irmão mais novo, assume o posto. Três anos depois, falhas no satélite acontecem e provocam eventos alarmantes, como uma forte Nevasca no Afeganistão, altas temperaturas e centenas de mortes em Hong Kong e a perda de um tripulante após falha em uma cabine. Jake é chamado em caráter de emergência para descobrir o que está por trás dos defeitos e solucioná-los, e terá também que superar todas as diferenças que tem com o irmão Max.

O roteiro consegue preencher bem os 109 minutos de duração do filme, sem a necessidade de cenas demasiadamente longas e apressadas. A câmera traz movimentos bruscos nos momentos certos, causando medo e apreensão nos personagens e espectadores, e a sequência de ações ajudam não só na compreensão da história, tornando-a verossímil. O foco não está somente nas tragédias e num possível apocalipse, a questão familiar é latente, o tempo todo é possível reparar a persistência de ranços entre Max e Jake, além de vermos um grande quebra-cabeças envolvendo a sabotagem do ‘Dutch Boy’ e os possíveis suspeitos, desde tripulantes a integrantes do mais alto escalão do governo norte-americano. As pistas vão surgindo e aos poucos os mistérios vão sendo desvendados. Várias opções são oferecidas ao espectador, que vai prestar atenção aos detalhes e ficará ansioso por soluções. Ponto para Dean Devlin, responsável para o roteiro, que também dirige o longa.

A montagem e os efeitos especiais tornam o filme ainda mais emocionante, reforçando o terror psicológico existente desde o início da trama, com o começo das tragédias, até um possível fim do mundo. Quem for ver o filme daqui a alguns anos achará que ele continua atual, tamanho realismo das cenas aliadas a interpretações carregadas de tensão e dramaticidade. Quem acompanha se convence de que tudo pode acabar a qualquer momento, bem como sentir um grande frenesi e quase pular da cadeira.

As atuações coroam um filme tão bem produzido. Gerard Butler e Jim Sturgess desenvolvem ações complexas e ao mesmo tempo significativas para a trama, ambos mostram um grande poder de evolução na história e capacidade para protagonizarem grandes reviravoltas. Abbie Cornish, como a agente Sarah Wilson, e Alexandra Maria Lara, no papel da comandante Ute Fassbinder, possuem importâncias cruciais no enredo e serão peças-chave nos momentos decisivos da história. E não podemos desprezar Eugenio Derbez, ator mexicano famoso por filmes mais cômicos, mas que dá o ar da graça, e a participação especial de Andy Garcia, que aparece brevemente no comecinho da trama e depois na parte final, como o presidente dos Estados Unidos.

Um filme envolvente, de belo plano estético e de forte apelo. Quem acompanha se impressiona com a perfeita construção de uma sequência de desastres naturais combinadas a ações frenéticas, um roteiro recheado de arcos dramáticos e com desfechos impactantes. ‘Tempestade: Planeta em Fúria’ vem para mostrar que explorar o fim do mundo no cinema ainda não se trata de uma fórmula desgastada e vencida, mas que ainda vale a pena investir e mirar públicos variados. E, sem dúvida, virá muito mais.

Avaliação: 4,5/5 poltronas.

 

 

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Resenha: A Guerra dos Sexos/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Resenha: A Guerra dos Sexos/ Cesar Augusto Mota

Sabe aquelas frases, como “Lugar de mulher é na cozinha” e “O homem consegue suportar pressão, mulher não”? Pois bem, a cultura machista ainda está, lamentavelmente, presente em nosso cotidiano, mas a mulher tem conquistado cada vez mais espaço e provado seu valor. E você tem ideia de como era o preconceito e a discriminação em relação à mulher na década de 70? Baseado em um famoso episódio da história recente dos Estados Unidos, “A Batalha dos Sexos”, que dá título ao filme, foi um acontecimento emblemático, que significou a luta pela igualdade de gênero e a implementação dos ideais feministas.

Billie J. King (Emma Stone), número um do ranking mundial no tênis feminino, está em constantes duelos, não só dentro de quadra contra suas adversárias, mas também fora dela. Billie J. é a líder na luta pela igualdade de direitos entre as mulheres, e vive em pé de guerra com Jack Kramer (Bill Pullman), principal organizador do Torneio de Tênis do Pacífico Sudoeste. Para ele, os homens merecem ganhar prêmios maiores por jogarem mais, apresentarem maior competitividade e por saberem lidar melhor com a pressão. Já a tenista não enxerga por esse ângulo, ela exige equiparação na premiação e mais apoio para a modalidade, o que é imediatamente negado. Aí é só o começo do que vai ser o filme, a protagonista precisará de todas as suas habilidades e energias não só para vencer em quadra, mas também para conquistar coisas ainda mais grandiosas e por um mundo mais justo.

Do outro lado da trama temos Bobby Riggs (Steve Carell), um tenista aposentado de 55 anos que está distante dos holofotes e que se mostra disposto a voltar à mídia. Com toda sua fanfarronice e seu jeito bufão, Bobby resolve aproveitar o momento de sucesso de Billy J. King e da popularidade do movimento feminista e propõe a realização de uma partida de exibição, com direito a prêmio de US$ 100 mil para o vencedor e cobertura do evento em horário nobre. Bobby Riggs também chama a atenção por saber explorar bem seu lado marqueteiro e debochado, se intitulando como “porco chauvinista”, além  do uso de adereços espalhafatosos. Bobby quer mostrar que tem condições de vencer qualquer adversário, apesar de sua idade avançada e forma física.

Antes que o embate entre os dois ocorra, as vidas privadas dos competidores são devidamente exploradas, para uma melhor contextualização da história e para o envolvimento do espectador com a narrativa. Tudo é feito com precisão, a estética é primorosa, com muito embelezamento e romantismo, e os momentos dramáticos em que Billy J. e Bobby Riggs vivem, a primeira com o peso e responsabilidade de lutar por uma causa que envolve grandes esforços e muita coragem, e o segundo, com problemas conjugais e vício em jogos de azar, trazem mais tensão e preparam o espectador para o que vem mais adiante, um duelo de titãs, com muitas provocações, hostilidades e temor pelo risco de insucesso. Há um equilíbrio na retratação do cotidiano dos dois personagens centrais, e as interações dos personagens secundários, com o apoio de Sarah Silverman, Alan Cumming e Elisabeth Shue, valorizam ainda mais a história.

No que tange às atuações, Emma Stone consegue imprimir força e versatilidade com sua personagem, de inicialmente perdida e afrontada, para depois se tornar forte e empoderada. Também são latentes o carisma e graciosidade de Stone, bem como as expressões corporais, com muita firmeza na forma como reage às adversidades. O comportamento demonstrado em quadra, seja pela força física e psicológica, nos mostram uma Billie J. King mais fortalecida quando atingida, e o conjunto da obra faz todos se identificarem e torcerem por Billie J. Steve Carell também se destaca como Bobby Riggs, um homem de jeito peculiar e caricato, que não está preocupado com os ideais femininos, mas em armar um circo midiático e ganhar bastante dinheiro. A veia cômica, característica inerente a Carell, ajuda bastante na composição do personagem, e sem dúvida vamos do céu ao inferno com Riggs, seja por conta de seu machismo e jeito fanfarrão ou em momentos engraçados numa mesa de jogo e nos momentos de preparação para o grande jogo, com as mais engraçadas fantasias e adereços.

O trabalho dos diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris (Pequena Miss Sunshine) merece ser reverenciado, pois consegue trazer para o público uma comédia regada por alguns momentos dramáticos, além de levantar um assunto que ainda gera polêmica, a igualdade de gêneros, e importantes mensagens, de que as mulheres merecem todo respeito e admiração e que a força demonstrada por elas diante de todas as agruras e adversidades jamais deve ser desprezada. E apresentar a história sob o pinto de vista de Billie J. também é outro ponto forte, você se identifica com ela e torce não só para que a tenista vença o jogo contra Riggs, mas que seja feliz fora das quadras e que as mulheres conquistem mais espaço na sociedade e nas competições esportivas.

‘A Guerra dos Sexos’ é um filme poético, poderoso, desafiador, que fará você sentir uma enorme carga emocional não só com o elenco, mas também com a temática proposta, que é muito atual. As mulheres já estão acostumadas a enfrentar grandes batalhas e alcançar grandes feitos, e estão prontas para os próximos desafios. Vale o ingresso!

Avaliação: 5/5 poltronas.

 

 

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Resenha: Bom Comportamento/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Resenha: Bom Comportamento/ Cesar Augusto Mota

Já vimos diversos filmes que envolvem criminosos, policiais, perseguições e muitos tiros. Mas ‘Bom Comportamento’, filme dos irmãos Ben e Josh Safdie, sai do lugar comum e traz ao espectador uma história que reúne ingredientes capazes de causarem grande frenesi e oferecerem um ótimo plano visual.

O enredo consiste em nos mostrar o drama de dois irmãos, Nick (Ben Safdie) e Connie (Robert Pattinson), após um plano de assalto fracassar e Nick ir parar na prisão. Vemos uma grande lição de companheirismo, união, muita resistência e toda a astúcia de ambos para se livrarem da perseguição policial e conseguirem sobreviver na cidade grande. Uma verdadeira odisseia tortuosa.

A escolha do elenco para esse filme foi um dos acertos para a trama funcionar tão bem. Além de Safdie e Pattinson, temos  Buddy Duress,  como o traficante e um dos grandes conflitos da história, Jennifer Jason Leigh, uma mulher um tanto desequilibrada e desconexa, além de Barkhad Abdi e Taliah Webster, como o segurança imigrante e uma jovem sem tantas ambições, respectivamente. Todos transmitem com muita veracidade o que sentem, passando para o espectador muito desespero nas cenas, além de transmitirem um ritmo alucinante de suas ações nos mais diferentes momentos da trama. Destaque para Robert Pattinson, que consegue representar muito bem um personagem complexo e se desgarrar um pouco do ícone que o consagrou na saga Crepúsculo.

O roteiro apresenta uma história bem estruturada, que vai evoluindo conforme os planos e mentiras arquitetadas por Connie, além de surpreender pela forma como os personagens secundários são encaixados, todos beirando à loucura e envolvidos nas tramoias de Connie. O ritmo é frenético, intenso, você acha que tudo pode ir por água abaixo a qualquer momento, mas aguarda com ansiedade pelo próximo passo a ser dado por Connie para tentar tirar Nick da prisão. Outro trunfo está na velocidade das ações, elas são feitas num ritmo que não comprometam o entendimento da história e o desenrolar dela, você consegue acompanhar tudo sem perder o fio da meada e ainda se surpreende a cada cena mostrada.

Mais um destaque da produção é a fotografia, um filme escuro, mas com cores vibrantes e que ditam o ritmo, de perseguição, pressa e muita melancolia. O uso da câmera na mão é um ótimo recurso para mostrar a correria e o desespero dos personagens, tudo bem de perto e em detalhes para o espectador não perder nada e ficar ainda mais envolvido. Aliada às imagens, que possuem um enquadramento centrado nos rostos dos personagens, temos uma trilha sonora regada à música eletrônica bastante pulsante e os barulhos da cidade ao fundo, tudo para criar um clima tenso e perturbador para o espectador.

‘Bom Comportamento’ é um longa de visual vibrante, com roteiro que prima pela ousadia e dinamismo, além de contar com um elenco renomado e de ótimo entrosamento. Quem procura fortes emoções, esse é o filme certo. Bastante aclamado no Festival de Cannes, quem sabe não caia também no gosto dos brasileiros?

Avaliação: 4/5 poltronas.

 

 

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Resenha: Roda Gigante/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Resenha: Roda Gigante/ Cesar Augusto Mota

Quem não se lembra de ‘Blue Jasmine’, filme de Woody Allen que rendeu para Cate Blanchett o Oscar de melhor atriz, em 2014? Após tropeços nos últimos anos, o aclamado cineasta resolve voltar a investir em um filme que possui uma mulher mais velha no centro da narrativa e cheia de conflitos para resolver. ‘Roda Gigante’, exibido recentemente no Festival de Nova York e na sessão de gala do último sábado (14/10) do Festival do Rio, chega para voltar a cativar os fãs de Allen e conquistar novos públicos.

A história se passa em Coney Island, Nova York, nos anos 1950, e somos apresentados inicialmente a Ginny (Kate Winslet), uma ex-atriz que é abandonada pelo primeiro marido após este ter descoberto sua infidelidade. Para manter a casa e o filho Richie (Jack Gore), um garoto de comportamento doentio e com mania de atear fogo nas coisas, Ginny passa a trabalhar como garçonete e posteriormente conhece Humpty (Jim Belushi), um mecânico de roda gigantes. Um apoia o outro nas adversidades e Ginny se casa com Humpty, mais por gratidão do que por amor. Infeliz no casamento, ela conhece Mickey(Justin Timberlake), salva-vidas do posto 7 da praia de Coney Island e universitário apaixonado por artes cênicas e literatura, com quem passa a ter um romance. Mas a vida de Ginny começa a mudar quando Carolina (Juno Temple), filha de Humpty, chega para pedir socorro e abrigo após seu casamento com um gângster chegar ao fim e ser jurada de morte pelos comparsas dele.

Dá para notar a presença de uma série de subtramas e vários abacaxis a serem descascados, e a expectativa que há é que Woody Allen tenha cartas na manga e vai trazer soluções mirabolantes para todas elas, mas será que ele realmente faz isso? O que é possível notar é a presença de diálogos sem profundidade, que se repetem em boa parte da história e sem tanto alarde, o uso da quebra da quarta parede, ou seja, o popular diálogo de um intérprete com a plateia e olhando para a câmera, feita pelo personagem de Timberlake, e o popular alter-ego do diretor, representado pelo personagem principal da história, caso de Winslet. Todos esses elementos já vimos antes, nada de inovador, e alguns desses entreveros não ganham grandes contornos durante a história, caso do comportamento controverso de Richie, e outros sem um desfecho claro. Muita coisa fica confusa aos olhos de quem acompanha e fica um gosto de quero mais. Há a presença de uma leve reviravolta na história, mas que não invalida a qualidade da obra.

A fotografia, assinada por Vittorio Storaro, três vezes vencedor do Oscar, traz uma belíssima reconstrução da cidade de Nova York dos anos 1950, com cores vivas, vibrantes, bonitas paisagens, mas também com tons de melancolia. Além disso, o jogo de luzes utilizado retrata o estado de espírito dos personagens. A iluminação muda na medida em que os diálogos se aprofundam, e nota-se nas cenas quem que Ginny conversa com Mickey abaixo de um píer na praia e quando Ginny e Carolina dialogam no quarto, no dia do aniversário de 40 anos da personagem de Kate Winslet. O humor desta se altera a ponto de vermos a cena com um tom mais acinzentado, visto que ela pensa que há algum relacionamento entre Carolina e Mickey, tamanho era o seu ciúme.

A escolha dos atores foi acertada e as atuações são grandiosas. Justin Timberlake não decepciona como Mickey, e também não é tão exigido, Juno Temple ilustra uma jovem inicialmente empolgada, mas que apresenta posteriormente um grande amadurecimento, o jovem Jack Gore rouba a cena em vários momentos e demonstra um personagem que outras crianças interpretariam. Jim Belushi agarra seu papel com unhas e dentes e demonstra muita força para voltar a fazer grandes trabalhos e Kate Winslet é a alma do filme, ela consegue ilustrar uma personagem carregada de culpa e situações mal resolvidas no passado, passa muita coragem, segurança e transparece uma verdadeira transformação para atingir o patamar que conseguiu na história. De encher os olhos.

Apesar dos altos e baixos, ‘Roda Gigante’ mostra a força ainda existente de Woody Allen, na capacidade de construir histórias com grandes arcos dramáticos, escalação de atores eficientes e a possibilidade de nos apresentar belos planos estéticos. Marcas registradas de um nova iorquino vencedor de quatro Oscars e ainda com muita lenha para queimar, longevidade ao mestre!

Avaliação: 4/5 poltronas.

 

 

Por: Cesar Augusto Mota

Poltrona Resenha: Blade Runner 2049/ Pablo Bazarello

Poltrona Resenha: Blade Runner 2049/ Pablo Bazarello

Villeneuve, para, que tá chato!

Por Pablo Bazarello

Quando Blade Runner – O Caçador de Androides foi lançado nos cinemas em 1982, sua recepção foi no mínimo fria por parte do público e também dos críticos, que não entenderam na época sua importância e influência para o gênero. De fato, Blade Runner ainda hoje surge como caso de estudo, mostrando o quão importantes são as bem vindas revisões de obras cinematográficas, para filmes em questão e também para os próprios avaliadores. É o olhar fora de seu tempo.

Blade Runner então era redescoberto alguns anos depois de seu lançamento, como se todos tivessem perdido o trem e deixado passar uma pérola de forma despercebida. Este era apenas o terceiro trabalho como diretor para o cinema de Ridley Scott, que meio por acaso escrevia seu nome na história como representante de um gênero que mudava com os novos tempos: a ficção científica. O trabalho anterior do cineasta havia sido Alien – O Oitavo Passageiro (1979), ao lado de Blade Runner formando uma dobradinha de duas das ficções mais significativas e ditadoras de tendência da história do cinema.

Pulamos para 2017, num tempo em que os blockbusters são produções enlatadas, vendidas para as massas através de uma fórmula da qual dificilmente querem se ver livre. Numa época em que muito já foi tentado – pensem só, são mais 35 anos de centenas de filmes lançados por ano – e pouquíssimo nos surpreende como novidade, seja narrativa, seja de roteiro ou estética (o visual). Neste cenário, chega a aguardadíssima sequência de um longa que justamente ajudou a revolucionar a forma como histórias são contadas no cinema – já imaginaram um noir de detetives, passado no futuro, com narração em off, robôs, carros voadores, e a maior das questões de todos os tempos: o que é ser humano? Sim, pois é.

É claro, Blade Runner é baseado no conto do papa da ficção científica Philip K. Dick, com roteiro adaptado por Hampton Fancher e David Webb Peoples (Os 12 Macacos). Para esta continuação, apenas Fancher retorna com um novo argumento e assinando o roteiro, que teve parceria do novato Michael Green (Logan). Para a dificílima tarefa de voltar ao universo da Los Angeles futurística – que se tornou sinônimo de direção de arte inovadora – de replicantes e seus caçadores, entra em cena um dos contadores de histórias mais talentosos da atualidade, o franco-canadense Denis Villeneuve. O diretor é daqueles que gosta de desafios, criando obras bem diferentes uma da outra e passeando por variados gêneros nos quais imprime sua pegada. Não poderia haver escolha mais satisfatória para não deixar Blade Runner se tornar uma obra fácil e de consumo rápido.

Da equipe original, além do roteirista Fancher, apenas Ridley Scott na produção e alguns rostos bem conhecidos no elenco. A direção de arte de Lawrence G. Paull, por exemplo, foi substituída pela de Dennis Gassner, que cria uma Los Angeles ainda mais sombria, igualmente chuvosa, mas demonstra que nesses quase 40 anos, a Terra, como era de se esperar, sofre de superpopulação. Percebemos através de algumas tomadas que uma grande área da cidade se tornou uma gigantesca favela, com um amontoado de pequenas casas, todas no mesmo plano. Até a residência do protagonista, o agente K (Ryan Gosling), é similar a um conjunto habitacional, onde os vizinhos não são os mais amistosos.

A fotografia de Jordan Cronenweth, falecido em 1996, dá lugar para a de Roger Deakins, considerado um dos melhores fotógrafos do cinema atualmente e dono de 13 indicações (incluindo Sicario: Terra de Ninguém), mas que ainda, injustamente, não possui uma estatueta do Oscar em casa. Quem sabe Blade Runner 2049 faça jus a este profissional. Basta dizer que o trabalho de Deakins no longa é bom neste nível. São inúmeras sequências de tirar o fôlego, que só não sobressaem ao filme em si, pela mão forte na condução de Villeneuve. Já a inesquecível trilha de Vangelis no filme original é homenageada na medida certa pela dupla Hans Zimmer (que não esquece seus esporros histriônicos) e Benjamin Wallfisch.

Na trama, Ryan Gosling interpreta o agente K. Ele é um Blade Runner, oficial designado a encontrar e eliminar replicantes infratores, ou seja, seres artificiais que não possuem autorização para fazer ou viver da forma que estão. Logo na cena de abertura, o oficial irá confrontar o personagem do grandalhão Dave Bautista, o Drax de Guardiões da Galáxia. Nesta única cena em que aparece, Bautista será essencial e dará o primeiro passo do grande enigma a ser desvendado ao longo de quase 3 horas de projeção (o original tinha 2 horas) – sim, você leu certo!

A esta altura é válido dizer que Blade Runner 2049 não é um blockbuster comum, não é puro escapismo, não é puro entretenimento. Se sua intenção for se distrair, não ter muito em que pensar e quiser apenas esquecer os problemas num filme pipoca de rápido consumo e descarte, procure em outras bandas, o novo Blade Runner não é o filme para você. Esta é uma obra contemplativa, de ritmo deliberadamente lento, que não faz uso de nenhuma grande cena memorável de ação. Blade Runner segue sendo um filme de questões, de mais perguntas do que respostas e de imersão, na qual nos pegaremos pensando dias após o término da exibição.

Existe muito a ser descortinado ainda, mesmo depois da primeira visita. Humildemente, reconheço que precisarei pensar bastante no que assisti hoje para tentar fazer jus, este texto com certeza não fará. Ao mesmo tempo, já posso adiantar que há muito não assistia a uma superprodução tão minuciosa e, por que não, sofisticada quanto o novo Blade Runner. As comparações com Mad Max: Estrada da Fúria (2015) são justas, no sentido de que ambas são blockbusters fora de seu tempo, presos a uma época em que cinema era arte bem cuidada e o entretenimento vinha depois. Hoje é o inverso, e filmes como estes causam estranheza, e o pior, comparações e desmerecimento com superproduções ordinárias.

A verdade é que eu poderia falar o dia todo sobre o novo Blade Runner, mas preciso ir direto ao ponto. Ryan Gosling se sai bem como o protagonista, no entanto, não é dono do melhor personagem ou cria empatia suficiente. Ao contrário do Deckard de Harrison Ford no filme original, o K de Gosling nos faz assistir a esta trama de fora. Sim, Harrison entra em cena, mas aos, digamos, 30 minutos do segundo tempo, dando uma guinada inclusive no estilo de filme e em seu teor, algo mais caloroso e emocional, em contraponto com a atmosfera quase gelada que era apresentada.

Jared Leto vive o enigmático criador dos seres sintéticos, aparece somente em duas cenas, e assim como o próprio ator / músico seu personagem não faz muito sentido. Quem rouba muito dos momentos são as fortes personagens femininas da trama. A cubana Ana de Armas é Joi, um ser mais artificial ainda que os replicantes, criando uma dinâmica triangular interessantíssima sobre níveis de realismo e virtualidade. A graciosa Mackenzie Davis (de San Junipero, o melhor episódio da fantástica Black Mirror) tem menos tempo em cena do que gostaríamos, mas entrega um dos momentos mais criativos e inovadores em uma ficção científica recheada deles. Por fim, o verdadeiro achado do novo Blade Runner, a holandesa Sylvia Hoeks, que vive Luv, a personagem mais interessante adicionada na nova história – dona de inúmeros subtextos e questões a serem adereçadas – e que surge como subversão de Rachael, a personagem de Sean Young no filme de 1982, parte intrínseca do novo igualmente.

Blade Runner 2049 pode ser chamado de um filme com uma trama simples e linear, mas lembrando que o original resumia-se ao oficial Deckard (Ford) encontrar e eliminar replicantes renegados, que tinham Roy Batty (Rutger Hauer) como líder. Seu diferencial estava nas entrelinhas, no forte teor filosófico e existencialista nos quais suas cenas eram criadas. O mesmo ocorre na nova versão, que vai além e apresenta um mistério que é um verdadeiro “tiro” no quesito “apresentar algo nunca anteriormente visto”. E para quem reclama do cinema Hollywoodiano explicado e mastigado para o público, quero ver saber lidar com 2049, e seu enigma não solucionado. Durma com esse barulho e muito cuidado com o que desejam.

 

Fonte: CinePOP