Poltrona Cabine: O Estranho que Nós Amamos/ Cesar Augusto Mota

Poltrona Cabine: O Estranho que Nós Amamos/ Cesar Augusto Mota

As opiniões dos cinéfilos sempre ficam divididas quando é lançado um remake de um  grande sucesso. Alguns aprovam, outros questionam a qualidade do novo título, e o que veremos em breve certamente fará as rodas de debates bombarem. A premiada cineasta Sofia Coppola, de filmes consagrados como ‘Maria Antonieta’, ‘As Virgens Suicidas’ e ‘Encontros e Desencontros’, dirige a nova versão de ‘O Estranho que Nós Amamos’, protagonizado por Clint Eastwood e dirigido por Don Siegel na versão de 1971. Sofia promete dar um novo foco e sob o olhar feminino. Será que ela conseguirá ter êxito em sua abordagem?

A história se passa durante a Guerra Civil americana, no século XIX, entre os anos de 1861 e 1865. John McBurney (Colin Farrel), soldado da União, está gravemente ferido e encontra refúgio em uma escola para moças no sul Confederado, dirigida por Miss Martha (Nicole Kidman). O internato conta com as aulas da professora Edwina (Kirsten Dunst) e possui apenas cinco jovens que restaram por conta da devastação da guerra, e um dos destaques é Alicia (Elle Fanning). A presença do soldado em um local rodeado por mulheres nos faz lembrar de ‘As Virgens Suicidas’, filme no qual várias pessoas presas em um mesmo teto passam a se relacionar e ter um envolvimento emocional com alguém de fora.

Com o passar dos dias, nota-se uma maior aproximação e uma relação ainda mais próxima entre o homem e mulheres das mais diferentes idades e personalidades, e cada uma se sentindo atraída por ele, das mais diversas formas. As paisagens do Sul dos Estados Unidos retratadas no começo da trama passam a dar lugar a um ambiente de delírio, muitas intrigas, desespero e claustrofobia, que farão o espectador ficar impactado e se sentir mais envolvido com a história. Questões como o espírito cristão, a moral e os sentimentos reprimidos são bem trabalhados, e cada uma se acentua em momentos chaves da história.

A fotografia é impressionante, principalmente a retratada no ambiente interno, da escola para moças. No início do filme percebemos tons pasteurizados e suaves, enquanto na casa sentimos um ar mais intimista, com iluminação por velas e um ambiente mais sombrio e pesado. O som e a trilha sonora também se destacam, e contribuem para as mudanças bruscas que ocorrem na narrativa.

O roteiro aborda temas que se fazem ainda mais presentes no cotidiano, como o machismo, o empoderamento feminino e paixões proibidas, mas tudo acontece de maneira muito rápida, não dá tempo de o espectador respirar, pois uma ação já desencadeia outra, além de não trazer muitas surpresas e apresentar um desfecho bem previsível. A duração curta do filme, de pouco mais de uma hora e meia, contribui para tudo isso.

Não poderia esquecer das atuações, todas competentes, mas dou destaque maior para Colin Farrel, que foi a força-motriz da trama, Nicole Kidman, que apresentou uma personagem forte e com o forte desafio de lidar com a perda de um grande amor, miss Marta consegue segurar as pontas e vai ser a chave para os conflitos e a conclusão da história, além de Kirsten Dust, uma moça delicada, mas que foi capaz de amadurecer, porém com a missão de evitar que as jovens internas caiam nas armadilhas feitas pela vida.

Sofia Coppola fez um trabalho elogiável, inclusive o roteiro leva seu nome, ela é capaz de passar importantes mensagens, de que se pode dar importância aos outros, mas antes é necessário se importar consigo mesmo e que existe confiança, mas não de forma plena. O filme ilustrou um grupo forte de mulheres, com suas próprias crenças e regras, além de umas protegendo as outras, mas a questão do empoderamento feminino, como Sofia fez questão de explorar, poderia ter sido de uma forma mais acentuada, uma guerra de sexos, digamos assim, mas a produção é de alto nível e merece ser apreciada. Uma produção eficiente, mas que poderia oferecer e entregar muito mais ao espectador.

 

 

Por: Cesar Augusto Mota